sábado, agosto 19, 2006

Arrepios

Tiago fica hipnotizado a olhar enquanto o rapaz se dirige para o balcão. Ele é alto, de cabelos pretos e de porte atlético e apresenta-se bem vestido. Veste de ganga e com uma t-shirt branca, justa ao corpo, com uma lista preta. Mas desvia o olhar quando se apercebe, esperando que ninguém tenha dado conta. Tarde demais. Rita já havia virado a cabeça para ver quem é. Vira-se para Tiago.
- Foda-se, tens bom gosto rapaz! – sorri.
Tiago cora, mas não resiste em olhar para o rapaz de vez em quando.
- Que borracho! – diz Rita. – Namoras?
- Não. – responde Tiago surpreendido pela naturalidade da rapariga em relação ao assunto.
- Imagino. Foda-se. Se é complicado para nós arranjarmos alguém, imagino vocês. – e debruça-se sobre a mesa como se fosse contar um segredo. – És mesmo gay ou és bi?
Tiago sorri.
- Mesmo gay.
Rita endireita-se.
- Ah, mas isso é fantástico. Foda-se. Imagina eu a andar pela casa e ver três gajos deliciosos a passearem-me pela sala. Sou uma sortuda do caralho!
E ri-se. Depois fica muito séria.
- Os teus pais sabem de ti?
- Não. – diz baixando a cabeça.
- E a tua irmã? Ela sabe?
- Sabe. – e dá mais uma trinca na sandes mista.
Rita sorri.
- Pelo que consegui perceber, ela está à vontade com isso. – pisca-lhe o olho.
Tiago solta um sorriso tímido. A verdade é que ele ainda está surpreendido pelo facto de Rita se sentir perfeitamente à vontade. Nunca lhe tinha acontecido algo semelhante.
- A minha irmã... – diz finalmente. – Ela adorou a ideia toda.
- ‘Tás a gozar!? – diz com os olhos completamente esbugalhados. – Foda-se. A sério?
- Sim. Disse-me que sempre quis ter um cunhado e que, assim, seria muito mais fácil.
Rita solta uma gargalhada sonante, o que desperta a curiosidade do rapaz. Ele olha no exacto momento em que Tiago lhe fixa o olhar. E é neste momento que Tiago se apercebe que o rapaz tem os olhos verdes rasgados, denunciando uma ascendência asiática. E ficam os dois, a olhar fixamente um para o outro, durante uns segundos. Por momentos o mundo funde-se numa mancha, numa amálgama de cores sem formas. E o rapaz sorri. Tiago fica perplexo e corta o olhar.
- Tiago. – diz Rita. – Vou à casinha das meninas e já volto. Mas vê lá. – diz, piscando o olho. – Não fujas com o gajo e me deixes aqui sozinha.
Tiago só consegue soltar um tímido sorriso de tão chocado que está com o que acaba de acontecer.
Rita levanta-se, deixando Tiago a terminar a sandes. Este, terminando o pequeno-almoço, acende um cigarro sem reparar que o rapaz se havia aproximado da mesa.
- Não devias de acender o cigarro assim de repente. – diz ele com uma voz levemente rouca.
Tiago congela.
- Posso te cravar um cigarro?
Tiago olha para ele mas não consegue responder. Agarra no maço e retira um dos quatro cigarros lá de dentro. Passa-o ao rapaz, que o agarra encostando o dedo indicador às costas da mão de Tiago. Este sente um arrepio na espinha. O rapaz sorri.
- Obrigado. E, já agora, podias-me dar lume? Não fumo há algum tempo e, como deves imaginar, não tenho isqueiro.
Tiago agarra no isqueiro e estende o braço em direcção ao rapaz. Este levanta o olhar em direcção aos olhos de Tiago e sorri.
- Quero que sejas tu a acender-me o cigarro.
Tiago nem acredita no que está a ouvir. Tudo isto parece surreal, um sonho. Acende o isqueiro e estica o braço para que o rapaz posso acender o cigarro. O rapaz agarra na mão de Tiago e olha-o de novo. Acende o cigarro. É nesta fracção de segundo que Tiago sente um formigueiro pelo corpo todo. Fica sem reacção nenhuma.
- Obrigado. Como é que te chamas? – pergunta o rapaz soltando-lhe a mão.
- T... Tiago! – responde, tentando evitar o olhar. Cora.
O rapaz sorri.
- Pedro. – pisca-lhe o olho. – Obrigado pelo cigarro, Tiago. És um amor! Vemo-nos por aí. – e parte.
Tiago fica estupefacto a olhar para a porta, sem reacção. Terá imaginado tudo? Rita volta e senta-se e chama-o, mas ele não responde. Então ela bate as mãos à frente dos olhos de Tiago, despertando-o.
- Ei... ! Tiago, acorda. Andas a dormir ou quê? – olha em volta. – Oh que pena! O borrachito foi-se embora. E nem metemos conversa. Foda-se.
Tiago sorri.
- Chama-se Pedro.
(continua...)
Abraços
Arms

2 comentários:

fabio disse...

muito boa a 1ª parte =) curti totil o conto! a descrição das expressões das personagens é muito boa... trata-se do sonho de qq pessoa! era bom k este tipo de situação acontecesse com esta naturalidade... no entanto, ñ é impossível =)
continuação de bom trabalho,
abraço

Lilás disse...

oi,
só agora conheci o vosso "cantinho",mas ja tou a adorar...A cena do "Quero que sejas tu a acender me o cigarro"...está muito á frente...Parabens...Continuem assim...Beijocas

Lilás

http://fragmentosdomeuinterior.blogspot.com